Fé...alegria e outras coisinhas mais....
Um dia, como um dia destes qualquer onde todo mundo vem me perguntar por onde andei no tempo em que sonhava, um padre decidiu criar um terço só para homens em Itaúna.
E não é que essa idéia deu certo?! A cantoria e a repetição das orações atraíram mais e mais gente. E toda aquela fé, aquele canto todo, feito faca cortou a carne de muita gente.
Geralmente, as quartas-feiras enquanto venho para casa, vejo centenas de homens se dirigindo ao terço na Gruta. Alguns levam seus filhos, outros são apressados, alguns parecem não querer ir, mas vão assim mesmo.
Nesta quarta-feira, enquanto eu me dirigia a Escola Dr. Lincoln, para a cerimônia de reinauguração vi um senhor indo de bicicleta para rezar. Pareceu-me tão poética e fervorosa a sua fé, que decidi escrever sobre o terço e sobre as coisas da vida e da morte.
Alguém que numa quarta-feira, dessas quartas-feiras sem graças, onde a lua cheia brilha e o futebol na TV parece mais interessante do que orar, um senhor pega sua bicicleta e anda quilômetros para chegar a um lugar e repetir algumas orações a troco de uma paz espiritual enorme.
Essas orações também pegaram meu pai. Diabético, de um silêncio inquietante, de um humor singular, teimoso e fanático pelo Galo, assim é meu pai. Alguém que sempre esteve perto e tão distante. Às vezes, a família é tudo que temos, às vezes queremos esquecê-la, mas ela está sempre ali para nos mostrar que a vida é uma coberta pequena demais para cobrir os pés e grande demais para se tampar a cabeça.
A minha família é recheada de grandes tropeços, grandes doenças e grandes emoções e alegria. Somos unidos por um nada e por sermos tão sofridos é que talvez eu tenha essa sensação de que tudo que é bom vai se acabar em um minuto, de uma hora para outra.
Talvez por isso eu ache que tenho a maldição do Jota. Já notou que grandes pessoas sempre se vão cedo. E que geralmente o nome delas começa com Jota: Joana D’Arc, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e outros tantos que assim como eu receberam um nome iniciado pela décima letra do alfabeto.
Não tenho o talento deles, não tenho o poder deles, acho que nunca terei mas sempre acreditei que vou me embora cedo. Não sei por quê. Talvez pela minha história, mas o fato é que nunca acreditei que veria meus netos crescer. Talvez isso seja a única forma que eu encontrei de vencer o tempo e a única forma de não envelhecer.
Um dos meus defeitos é ter o complexo do Peter Pan e me sentir sempre na idade errada. Tenho 31, mas me sinto como se vivesse como um adolescente. Recheado de emoções, no sentido das loucuras, no sentido da pureza. Sempre foi assim. Enquanto meus amigos cresciam e se ingressavam no mundo adulto, eu parecia ficar para trás. Não me importo com isso, afinal de contas acho que esse mundo de adultos, cheios de regras e condutas, não me pertence mesmo.
Talvez por isso não me assuste com a morte, talvez por isso acredite plenamente em Deus e na sua promessa de amor eterno e vida plena. E talvez por isso é que um terço e uma bicicleta viraram crônica essa semana.