Faca, Cabelo e muitas outras histórias
Encontrei com o meu amigo Flávio Oliveira no carnaval. Para muitos, o Flávio é o filho médico do médico Geraldo Baru. Mas para mim, ele é o Flávio da república.
Ele, eu e mais alguns amigos e amigas dividimos por um longo tempo um apartamento na Rua da Bahia, em BH. Vida de estudante: contando pratinhas para comprar o almoço e se não fosse o franguinho salvador da mãe do Flávio ou as carnes cozidas da minha mãe, que levávamos nas mochilas quando vínhamos à Itaúna, a nossa semana seria regada a arroz e mais arroz.
Mas o apartamento 405 não guarda apenas más recordações, pelo contrário, demos boas risadas lá. Do dia em que botei fogo entre os dedos de um colega de quarto enquanto ele dormia, utilizando a velha técnica dos desenhos animados, acendendo um fósforo estrategicamente colocado entre o dedão e o anular do pé esquerdo até o dia em que fomos sabatinados pelo pai de um dos moradores que acreditava que iríamos plantar uma árvore dentro do apartamento, a república do 405 foi uma festa só.
Do Flávio, lembro da sua eterna luta para se concentrar nos estudos e passar em medicina. O sonho dele era seguir os passos do pai que, guerreiro, formou-se em medicina após ser pedreiro, garçom e uma infinidade de profissões tão dignas como a de médico, mas não tão rentáveis social e economicamente.
O meu amigo Flávio disse que leu minhas colunas e prometi a ele escrever uma de nossas histórias de republicanos.
No mesmo prédio nosso, havia uma república no sétimo andar só de mulheres de Itabira. Pouco tempo depois nos entrosamos e numa festinha, o Flávio conheceu uma menina chamada Daniela. Magra, cabelos encaracolados mais ou menos na altura dos ombros, olhos verdes. O Flávio, que de bobo não tem nem o andado, acabou se ajeitando com a garota. Ficamos bebendo vinho e comendo queijo, fomos expulsos do apartamento pela síndica que reclamou do barulho e lá pelas tantas horas eu voltei para casa. A mistura queijo e vinho barato fez com que eu passasse mal pela única e primeira vez na minha vida. Mas como desgraça pouca é bobagem, enquanto eu limpava o quarto com amaciante de roupas, já que foi a única coisa que havia em casa para limpar o cheiro de azedo, o Flávio entrou e ao ver a cena desatou a rir. Mas o castigo sempre vem a cavalo.
Menos de uma semana depois, toca a campainha do nosso apartamento e quando eu abri a porta quase cai para trás. A menina que o Flávio beijava me apareceu no 405 com os cabelos curtíssimos. Pior, parecia um dos “five dos Jacksons”, mas com o corte todo irregular.
Quase não me contive e, entre os dentes serrados para não rir, falei que o Flávio estava no quarto. “Que isso Daniela? O que você fez no cabelo?” perguntou ele e ela, mais do que depressa, respondeu: “Cortei. Você gostou?”.
Educado como sempre Flávio disse que sim e perguntou quando tinha sido isso. “Foi agora. Estava lá em casa, aí peguei a faca da cozinha, aquela de cabo preto, e passei no cabelo”.
Foi a deixa para que Flávio e eu disparássemos numa gargalhada interminável. O pior é que não conseguíamos parar de rir e a Daniela acabou indo embora, não sem antes ouvir uma piadinha nossa. “Olha se você quiser aparar a sobrancelha tem uma faca menorzinha aí na cozinha”.
Bons tempos de república. Perdíamos as namoradas, mas a piada jamais.