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Por: Júnior Fonseca

reporterjr@yahoo.com.br

Indiana Jones em plena Marechal Deodoro

Eu ainda era estudante. Bom, estudante eu sou até hoje e pelo que vejo serei para o resto da vida, sempre me aperfeiçoando, mas quero dizer que eu ainda cursava o ensino médio no Estadual. Tempos de juventude, farras, cadernos, mochilas e de voltar para o bairro de Lourdes a pé com a barriga roncando de fome e debaixo de um sol forte.
Todo dia era a mesma coisa: levantar antes das seis, ir para o Estadual, levar as aulas a sério, ou não, e depois pegar a tralha e voltar para a casa.
Éramos uma turma de mais ou menos seis amigos que compartilhávamos a amizade e o caminho do Centro, não o do meio, como pessoas especiais querem que eu faça, mas o caminho que levava ao Centro da cidade e à escola.
Pelo percurso íamos encontrando mais gente e a turma que antes se limitava a meia dúzia chegava ao Estadual numerosa.
Na volta, a mesma ladainha e o que parecia decoreba nas aulas para nós se tornava enfadonho ao voltar para a casa. O mesmo caminho, as mesmas lojas, o mesmo sol forte. De diferente só quando conseguíamos uma carona, aí sim, tínhamos motivos de sobras para aprender a lição e entrar rapidamente no carro e chegar cedo em casa.
Em um dia desses, em que o sol fritava os nossos neurônios mais do que as aulas chatas de matemática, caminhávamos pela Marechal Deodoro rezando por uma carona. A rua estava lotada de gente, alunos, carros, pessoas e suas compras. No meio da balbúrdia, apareceu o Rubinho, irmão do meu amigo Osvaldo em sua Fiorino. Não era uma Fiorino nova, na verdade, para mim, era um Fiat 147 cortado, branco e com um cheirinho de frango, já que o carro era para transportar os frangos abatidos do abatedouro dele.
Mas a carona era providencial e num sol forte a carroceria da Fiorino era melhor do que qualquer limousine.
Não sei caro leitor, se você já foi pobre na vida, ou se já pegou carona. A verdade é que quando alguém pára, parece que as pessoas se multiplicam e o espaço que parecia grande se torna pequeno. Lembro-me até hoje o Rubinho parando no meio da Marechal Deodoro, atrapalhando o trânsito e pedindo para a gente subir rápido. Não sei de onde saiu tanta gente. Só sei que quando fui subir na carroceria, não havia mais lugar, as pessoas se multiplicaram e eu fiquei sem lugar de subir. Prevendo que me deixariam para trás, e pior do que voltar a pé para casa é voltar a pé e sozinho, corri para a parte de trás da camionete. Subi no pára-choque da Fiorino, com o trânsito atrás de mim completamente congestionado.
Quando ia passar a primeira perna para dentro do carro, o Rubinho acabou arrancando a Fiorino. Com o arranque, eu me desequilibrei e fui para trás, aí pensei: “vou me jogar aqui dentro mesmo”.
Só que tão veloz quanto o meu pensamento, foi à segunda marcha passada pelo Rubinho. Resultado: meu pés escorregaram do pára-choque e eu fui sendo arrastado pela Fiorino em plena Marechal Deodoro.
Sabe aquela cena do Indiana Jones? Pois é. Foi igualzinha. Eu arrastado pelo carro. Quando os meus pés escorregaram eu segurei na tampa traseira e fiquei dependurado e o pior é que os “trocentos” amigos que estavam dentro do carro não conseguiam parar de rir e avisar ao motorista para parar o carro.
Eu olhava para o asfalto passando rapidamente por debaixo de mim e pensava: “caramba, se eu soltar vou me esborrachar”. Aliado a isso eu já sentia o joelho esquentar, pois a calça jeans já não estava agüentando o “roça-roça” no asfalto.
Graças a Deus, uma boa alma conseguiu engolir o riso e pedir ao Rubinho para parar. Foram só alguns metros, mas para mim pareciam quilômetros. O pior estava por vir.
Assim que levantei e olhei para trás, parecia que o tempo tinha parado. Todas às pessoas que estavam na rua estavam atônitas com cara de espanto e pior. As pessoas que estavam nas lojas também estavam pasmas, pois elas saíram para ver o que estava acontecendo.
Com presença de palco e de espírito, olhei a cena, me curvei como que agradecendo pelos aplausos imaginários que não aconteceram e pulei dentro da Fiorino, que foi embora com muitos risos e uma dose de vergonha da minha parte.
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