Questão de experimentar
Se meus pais fossem ciganos, teria sido fácil encontrar nas veias uma incontida vontade de errar (de errância, caro leitor). Se meus pais fossem retirantes, teria sido imperativo cruzar o mapa com sacolas nas costas, magras costas, em busca de qualquer futuro onde se encontrasse água potável ou trabalho.
Se meus pais fossem fugitivos de guerra, a viagem talvez fosse parte das memórias mais felizes da família. Se meus pais fossem músicos de sucesso, minha infância talvez tivesse sido pegando carona nas turnês deles, entre os roadies e engenheiros de som (quisera Deus que fosse rock’n’roll).
Se meus pais fossem bons turistas, talvez eu curtisse gastar uma grana preta nas férias e passar vinte minutos diante de cada monumento (e talvez minha câmera fotográfica fosse melhor). Se meu pai fosse astronauta, muito provavelmente eu e meu irmão teríamos a meta de ir à Lua um dia, a passeio, se não para morar e começar a especulação imobiliária (se minha mãe fosse corretora de imóveis).
Se meu pai fosse piloto de avião, provavelmente faríamos compras em Miami e teríamos medo de andar de ônibus.
Meu pai era barista, só barista, daqueles que ganham a vida servindo café e cachaças coloridas (da amarelinha?... não, quero da branquinha!). Minha infância foi cheia das ausências dos meus pais, meu pai faleceu cedo e minha mãe trabalhava (e ainda trabalha) muitas horas no bar.
Por outro lado, minha mãe ganhava algum dinheiro e podia nos levar para a praia uma vez por ano. Então, íamos para a praia ver o sol mais de perto e fazer guerrinha de areia. Lá na praia, nós fazíamos amigos de infância que duravam quinze dias, vomitávamos o camarão no espeto e ficávamos quase três dias com diarréia por conta da gastroenterite. Mas era bem divertido. Aprendemos a usar protetor solar para não ter queimaduras. As férias acabavam e voltávamos à terra de branquelos, e mostrávamos nossas marcas de verão nos ombros. Duas semanas adiante, na volta às aulas, descascávamos como baratas. Era bem legal.
Depois de alcançar a tal idade em que era possível e dar o contra nas vontades praianas da minha mãe, passei a ficar em casa mesmo, onde eu podia estar sozinha e promover festinhas. Meus diários de viagens felizes começam aí. As viagens dela, não as minhas.
Viajar é bom, faz bem para a cabeça, amplia a cultura e nossas referências, faz você entrar em contato (e em contraste) com o outro, etc. e tal. A maior parte das pessoas que eu conheço, no entanto, sai do lugar, mas elas não estão dispostas a nada disso, de fato.
Elas têm passaportes recheados, elas têm milhas de avião, mas elas vão fazer lá o que fazem aqui, elas vão pedir lá o que pedem aqui e elas não vão para qualquer lugar, ter experiências que ampliem seus repertórios e as tornem mais tolerantes. Elas não vão se “misturar” com ninguém, elas não vão aprender com nada.
Elas vão, quando muito, seguir um roteiro padronizado pelos amigos delas.
(Sussurrando): Eu sofria para viajar. Levava só bagagem de mão, para ter mais motivos para voltar. Também jamais fiz dessas viagens boas de contar vantagem para os outros. Lá na minha cidade, não era comum as pessoas viajarem de avião (e avião não era o que é hoje).
Eu gosto de avião. É uma questão de rapidez, nada mais. O lanche é ruim (ainda mais que agora que o fornecedor de barrinhas de cereal mudou e, por vezes servem mesmo só um copo de suco de laranja... aquele da caixinha com gosto de remédio!) e as pessoas continuam fazendo as mesmas coisas que faziam nos ônibus.
Um dia me disseram que ser diagramadora era entediante. Eu descobri que não. Com muita pechincha, já viajei muito na minha vida e conheci um montão de lugares deste mundão. Brincando, vi mais praias do que minha mãe em toda a vida dela e conheço o mapa, a bem dizer, de cima embaixo (mais em cima do que embaixo). Não sou rato de praia, não chego e fico tostando no sol, por isso nunca volto queimadinha, descobri, faz tempo, que ser branquela é bonito e dá menos trabalho (hehehe).
Viajar é um conceito. Questão de experimentar. Não é questão de comprar passagens.
Eu não sou piloto, nem astronauta, nem cigana. Eu escolhi uma profissão mais sossegada que, por vezes, me proporciona viagens. Quem mora em outras cidades é que sente as dores e as delícias da experiência, da vizinhança, dos costumes, dos cheiros. Esses verões de quinze dias fazem bem mesmo é para nossa coleção de fotografias.