Soldadinho de açúcar... ou de como o chumbo derrete com a chuva
Sete de setembro. Patriotismo?! Sim, mas também boas histórias dos meus sapatos escritos. Com treze anos o sonho de muitos adolescentes é sair na fanfarra de suas escolas, desfilando com aquelas roupas de soldadinho de chumbo pelas avenidas, tocando algum instrumento.
Bom, pelo menos era isso que o pessoal da minha geração sonhava. Comigo não era diferente.
Vestir aquele casaco ultra, mega quente. Aquele chapéu que vivia caindo no rosto e ser apreciado, aplaudido, zombado por um punhado de gente também fazia parte dos meus sonhos adolescentes.
Foi com esta utopia que Bruno, Éliton, assim mesmo, sem o W, bem aportuguesado, e eu ingressamos na fanfarra do Senai. Na época, estudávamos na sétima série do Polivalente e quando soubemos que o Senai iria desfilar junto com o Colégio foi à oportunidade que tínhamos para “vestir a farda”.
Meses antes de setembro nos apresentamos no Senai. Aprovados com louvor, na verdade eles estavam eram mesmo precisando de gente, começamos a ensaiar.
Renegados ao segundo pelotão começamos a tocar uma espécie de surdo. Era menor, porém tocado com apenas uma baqueta.
O instrumento era pesado e ensaiávamos pelo menos três vezes por semana. Saiamos às ruas tocando por quilômetros e quilômetros e aos poucos íamos entrando no compasso.
O Maestro Fidelis até que tinha paciência. Às vezes, nós é que a perdíamos. Principalmente com o Éliton que exageradamente sempre dava um pancada a mais no instrumento quando todo mundo parava.
Os ensaios para mim eram um martírio. Sair às ruas, carregando um instrumento, por várias subidas e descidas sempre terminava com os pés inchados, o corpo cansado, a perna direita, onde apoiava o surdinho, roxeada. Mas eu vislumbrava o Sete de Setembro, a praça, sim naquela época ainda era na praça da Matriz, lotada, o público ovacionando e eu como um soldado de chumbo.
Às vésperas do feriado, o último ensaio geral contou com a participação de todo Polivalente. Fomos ao Senai, formamos a fila e lá fomos nós tocando. Ao chegarmos ao Polivalente, todo mundo estava nos esperando. Uma festa e eu me sentindo o rei da cocada preta.
Todo mundo abrindo alas para ver a banda passar. Tomamos o nosso lugar e lá fomos nós puxando a escola inteira.
Tudo ia bem até que.... Bem, se você é leitor dos Meus Sapatos Escritos, sabe que sempre tem um mas. Se não é, aqui vai o seu primeiro mas, mas (de novo) ele não será o único.
Tudo ia bem até que ao virarmos nossa última curva, puxando toda a escola sem atravessar o compasso eu, um dos últimos, acabei tropeçando. Para não estragar o instrumento, eu, na minha santa bondade, acabei me virando, caindo de costas, com o surdinho no colo.
Até que a fanfarra enxergasse meu infortúnio, eles já estavam longe. E como eu tinha caindo com o surdo no colo, não conseguia me levantar sozinho.
Quando finalmente me viram, qual uma tartaruga, pararam e vieram me socorrer. Não preciso dizer que o Polivalente em peso estava às gargalhadas e que o Bruno e o Éliton mal conseguiam se segurar de tanto rir.
Levantei, sacudi a poeira e pensei no Sete de Setembro, vestido de soldadinho e consegui contornar a vergonha.
Não preciso dizer que nos dias que se seguiram eu era o assunto da escola e motivo de piada. Até desenhos de tartarugas eu tinha que agüentar. Mas renegava a tudo, pensando no Sete de Setembro e na glória que estava por vir.
À noite que antecedeu o feriado eu quase não dormir. Tínhamos escolhido os uniformes e o meu tinha ficado perfeito. Sonhei com a multidão. Às seis, minha mãe me acordou. Mas, como disse, sempre tem um mas, uma chuva torrencial caia sobre o pequeno barracão que morávamos.
Meu tio passou para me buscar e sob um temporal chegamos ao Senai. Esperamos a chuva passar. Mas ela não passou. O céu parecia o meu coração chorando.
Meia hora antes do combinado, o Fidelis deu o veredicto final. Não desfilaríamos para não estragar os instrumentos.
Meu sonho foi pela água da chuva abaixo. O soldadinho de chumbo foi derretido por uma chuva pré-primavera. Saímos todos com água nos olhos e de guarda-chuva fomos para a praça da Matriz. Mas pouco antes do desfile a chuva parou e o céu abriu. Não havia mais tempo de se voltar ao Senai e vestir a farda.
Da arquibancada de madeira improvisada pude me ver, no meio da escola que desfilava. Um soldado sem farda e mais um sonho não realizado.